02 Setembro, 2019Construção e investimento dão sinais de retomada

Destaques positivos do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, a construção, pelo lado da oferta, e os investimentos, pelo lado da demanda, tiveram crescimento forte no período, mas ainda há dúvidas sobre se finalmente vão engatar uma retomada consistente. Para alguns economistas, não há o que comemorar. Outros veem na queda dos juros e no aumento do crédito motivos para esperar números positivos no futuro.

O PIB da construção cresceu pela primeira vez, na comparação anual, após 20 trimestres em queda, segundo as Contas Nacionais divulgadas ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O aumento foi de 2%. Sobre o primeiro trimestre, houve alta de 1,9%, feito o ajuste sazonal. Nessa série, o PIB do setor tem oscilado entre altas e baixas desde o fim de 2017. Mas o desempenho é o melhor resultado desde a alta de 5,8% no primeiro trimestre de 2014.

Já a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, medida de investimentos no PIB), subiu 5,2% na comparação com o ano passado e de 3,2% sobre o primeiro trimestre, quando caiu 1,2%. Parte dessa alta é creditada à construção, que tem peso de 50% nos investimentos, segundo o IBGE.

"A construção foi responsável pela virada nos investimentos", disse Rebeca Palis, chefe do Departamento de Contas Nacionais do órgão. A melhora na construção foi impulsionada pelo mercado imobiliário, enquanto a parte de infraestrutura continua deprimida. Para analistas, o alto nível de ociosidade da economia e o cenário externo mais incerto podem frear uma retomada mais forte do investimento.

Tanto construção quanto investimentos ainda têm um longo caminho a recuperar. No segundo trimestre, o PIB da primeira ainda estava 30% abaixo do auge registrado em 2014. O do segundo seguia 26% abaixo do pico.

Segundo dados elaborados pela LCA Consultores, a queda do PIB da construção durante a recessão de 2014 a 2016, de 27%, foi a maior entre todos os períodos de contração registrados desde 1981-1983. E, ao contrário dos outras ocasiões, não houve recuperação mais consistente após o setor bater o fundo do poço.

No segundo trimestre, a construção surpreendeu e há sinais bons também para o terceiro trimestre. Mas o crescimento sustentado depende de uma recuperação robusta dos investimentos, além da preservação do Minha Casa, Minha Vida e do FGTS, principal fonte de recursos para fomentar moradia de baixa renda, afirmou Ana Maria Castelo, coordenadora de projetos do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV.

Emprego e confiança estão em alta no setor. O Índice de Confiança da Construção (ICC), da FGV, avança desde maio e atingiu 87,6 pontos em agosto, maior patamar desde dezembro de 2014. No mercado de trabalho, em julho, o país criou 43.820 vagas formais, 18.721 delas na construção civil, a principal contribuição positiva do mês.

Dados do primeiro semestre compilados pela FGV sugerem que os empregos estão sendo criados, em geral, ainda por setores antecedentes. É o caso das vagas em serviços de engenharia, que avançaram 7,5% no período.

No mercado imobiliário residencial, o lançamento de unidades cresceu 11,8% no segundo trimestre, sobre 2018, e as vendas subiram 16%, segundo dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). Mas Castelo observa que os resultados estão concentrados no Sudeste, onde os lançamentos subiram 35,5%, e as vendas, 33,5%.

Para José Ronaldo Souza Júnior, diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a recuperação do setor de construção, tem "lastro". "Embora possam existir diferenças regionais, aparentemente houve redução dos estoques imobiliários e isso dá lastro para a recuperação. Houve também melhora significativa das condições de financiamento, com taxas de juros mais baixas, o que é um dado que pode ser visto como sustentável", diz.

Em uma medida aproximada da FBCF produzida mensalmente pelo Ipea, as máquinas e investimentos mostraram avanço de 7,8%, e a construção, de 2,8%, no segundo trimestre em comparação com mesmo período de 2018. Souza Jr. prevê mais espaço para melhora se houver avanço da agenda de concessões em infraestrutura.

Luka Barbosa, do Itaú Unibanco, diz que poderá ser difícil o setor de construção, muito ligado ao desempenho fiscal do governo, acelerar. "Se parar de cair, já será bom." Para Barbosa, a melhora do setor imobiliário está concentrada em São Paulo e a infraestrutura precisa dos recursos dos governos. Ele lembra que 70% do investimento em construção vêm de Estados e municípios, que estão com as finanças combalidas e sem perspectiva de solução, já que, por exemplo, não foram incluídos na reforma da Previdência. "O que afeta mais o investimento é a construção pesada, que está parada."

A LCA diz que a construção dá sinais de sair do fundo do poço, especialmente por causa do aumento do crédito. A consultoria lembra que o segmento ensaiou uma estabilização no fim do ano passado, com quase dois anos de atraso em relação ao PIB agregado, mas voltou a cair (-0,5%) no primeiro trimestre. (Colaboraram Alesssandra Saraiva e Bruno Villas Bôas, do Rio)
VOLTAR

Fonte: AÇO BRASIL